sobre o que se sente na estrada

abaixo, a coluna da semana passada publicada no riovale jornal, aqui de santa cruz, apoiador da operação banda oriental.

tem a ver com sentidos; na verdade, subjetividades as mais diversas; aquelas que não frequentam as planilhas de planejamento, não constam nos manuais, mas que, no entanto, fazem toda a diferença.

clique na imagem para entrar na edição; abaixo, texto na íntegra.

coluna-28-de-outubro-sexta

Sobre o que que se sente da estrada

Acho que não erro quando penso que a estrada, em especial para quem pedala, é um lugar onde todos os sentidos são colocados à prova.

É pedalando, por exemplo, que a gente tem a oportunidade de sentir a umidade da neblina no rosto, o óculos embaçado; o sol queimando as partes expostas do corpo e o cheiro da lenha sendo queimada no fogão de alguma casa por onde se passa.

É sobre as duas rodas de uma bicicleta que o vento tanto congela quanto refresca; que o aceno da criança que passa é quase um grito de liberdade; que a vida se sente mais plena, enfim.

Cheguei a essas conclusões dias atrás, por pelo menos duas vezes, quando de um pedal até Pantano Grande, e de lá para casa; coisa de pouco mais de 100 km de sensação.

Consta que, até então, minhas pedaladas tinham sido até Rio Pardo, 35 km daqui da Verena pela BR 471, mas nunca para além.

Como o dia estava bonito, decidi espichar, como disse, até Pantano Grande.

Quando passei sobre a ponte do Jacuí, o vi aquelas lonjuras todas, aqueles campos largos, longos; campos de arroz e distâncias, tive uma sensação extremamente prazerosa, quase um êxtase.

Foi tão estranho quanto bom; algo muito parecido com um orgasmo, ainda que não tão forte, uma sensação, como disse, muito boa.

O fato é que, sem me dar conta, a velocidade estava em 30 km/h – minha média é 20 km/h – e eu me sentia muito, mas muito feliz, ao ponto de rir sozinho, de me sentir vivo e bem.

Mais adiante, quando cheguei ao trevo de acesso a Pantano, e quando olhei adiante, em direção a Encruzilhada do Sul; quando vi, ao longe, aquele asfalto liso, livre, sinuoso e lindo, me chamando, senti tudo o que havia sentido antes, só que mais intenso.

Por um momento, não mais que um segundo ou dois, a vontade que deu foi pegar a estrada de uma vez por todas e pedalar, pedalar, pedalar até não pode mais!

O que isso significa? Não faço ideia, mas desconfio.

Foi mais ou menos isso que Guilherme Cavallari sentiu, acredito, quase no final de sua longa viagem de seis meses pela patagônica argentina e chilena, aventura que deixou brilhantemente registrada em seu “Transpatagônia: pumas não comem ciclistas”  (Kalapalo, 2010).

Consta que, lá pelas tantas, quase no final da viagem, Guilerme, cansado de mais um dia pedalando, armou sua barraca e foi dormir; em breve estaria em casa e precisava descasar.

Lá pelas tantas, no meio da noite, ele acorda, tenso, como se houvesse algum problema físico, uma dor de estômago, talvez.

É quando ouve um barulho discreto do lado de fora da barraca, e descobre, de um lado, que havia um puma passando por ali, e que ele, finalmente, estava integrado à natureza que tanto amava.

Talvez seja isso, então.

Bora pedalar?

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