sobre o que se sente na estrada

abaixo, a coluna da semana passada publicada no riovale jornal, aqui de santa cruz, apoiador da operação banda oriental.

tem a ver com sentidos; na verdade, subjetividades as mais diversas; aquelas que não frequentam as planilhas de planejamento, não constam nos manuais, mas que, no entanto, fazem toda a diferença.

clique na imagem para entrar na edição; abaixo, texto na íntegra.

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Sobre o que que se sente da estrada

Acho que não erro quando penso que a estrada, em especial para quem pedala, é um lugar onde todos os sentidos são colocados à prova.

É pedalando, por exemplo, que a gente tem a oportunidade de sentir a umidade da neblina no rosto, o óculos embaçado; o sol queimando as partes expostas do corpo e o cheiro da lenha sendo queimada no fogão de alguma casa por onde se passa.

É sobre as duas rodas de uma bicicleta que o vento tanto congela quanto refresca; que o aceno da criança que passa é quase um grito de liberdade; que a vida se sente mais plena, enfim.

Cheguei a essas conclusões dias atrás, por pelo menos duas vezes, quando de um pedal até Pantano Grande, e de lá para casa; coisa de pouco mais de 100 km de sensação.

Consta que, até então, minhas pedaladas tinham sido até Rio Pardo, 35 km daqui da Verena pela BR 471, mas nunca para além.

Como o dia estava bonito, decidi espichar, como disse, até Pantano Grande.

Quando passei sobre a ponte do Jacuí, o vi aquelas lonjuras todas, aqueles campos largos, longos; campos de arroz e distâncias, tive uma sensação extremamente prazerosa, quase um êxtase.

Foi tão estranho quanto bom; algo muito parecido com um orgasmo, ainda que não tão forte, uma sensação, como disse, muito boa.

O fato é que, sem me dar conta, a velocidade estava em 30 km/h – minha média é 20 km/h – e eu me sentia muito, mas muito feliz, ao ponto de rir sozinho, de me sentir vivo e bem.

Mais adiante, quando cheguei ao trevo de acesso a Pantano, e quando olhei adiante, em direção a Encruzilhada do Sul; quando vi, ao longe, aquele asfalto liso, livre, sinuoso e lindo, me chamando, senti tudo o que havia sentido antes, só que mais intenso.

Por um momento, não mais que um segundo ou dois, a vontade que deu foi pegar a estrada de uma vez por todas e pedalar, pedalar, pedalar até não pode mais!

O que isso significa? Não faço ideia, mas desconfio.

Foi mais ou menos isso que Guilherme Cavallari sentiu, acredito, quase no final de sua longa viagem de seis meses pela patagônica argentina e chilena, aventura que deixou brilhantemente registrada em seu “Transpatagônia: pumas não comem ciclistas”  (Kalapalo, 2010).

Consta que, lá pelas tantas, quase no final da viagem, Guilerme, cansado de mais um dia pedalando, armou sua barraca e foi dormir; em breve estaria em casa e precisava descasar.

Lá pelas tantas, no meio da noite, ele acorda, tenso, como se houvesse algum problema físico, uma dor de estômago, talvez.

É quando ouve um barulho discreto do lado de fora da barraca, e descobre, de um lado, que havia um puma passando por ali, e que ele, finalmente, estava integrado à natureza que tanto amava.

Talvez seja isso, então.

Bora pedalar?

a mais longa das pedaladas

ontem cometi aquele que, pelo menos até este momento, foi o pedal mais longo de toda a minha vida: 206,09 km daqui de minha casa até encruzilhada do sul, pela BR 471, e de lá de volta pra casa, total 17 horas pedaladas, velocidade média de 17,1 km/h e máxima de 51 km/h – pulso com pico em 138 bpm.

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foi um pedal importante para meu treinamento à operação banda oriental, agora no verão, por vários motivos, a começar pelo fato que ultrapassei a barreira dos 120 km, experimentei uma rota sem recurso algum, pedalei noite e dia, literalmente, e, sobretudo, vi que tudo isso era possível.

se você for para aqueles lados, pela BR-471, terá algum recurso tipo posto de gasolina somente até rio pardo. depois, só se você entrar em pantano do sul, alguns quilômetros a mais, ou esperar chegar até encruzihada do sul, 100 km adiante.

a partir do momento em que você cruza a BR-290, por sinal, é um deserto só. sem sombra, sem área de descanso, sem nada. e com muito tráfego de caminhões. naquele trecho tem de cuidar muito, pois o acostamento, apesar de bom, é estreito.

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outra coisa importantíssima: água.

levei duas garrafas, mais ou menos 1,5 litro, pensando em reabastecer no caminho, mas só pude fazer isso 4 km antes de encruzilhada do sul, num posto à esquerda de quem vai (não tem como errar: é o único). ali comi um prato de comida por R$ 20,00.

falando em comida, levei maçãs e barrinhas de cereal, que eu mesmo faço, mas lá pelas tantas a  gente sente falta de sal. foi por isso, talvez, que faltando 16 km para encruzilhada, senti um cansaço monumental e tive de procurar uma sombra pra recuperar as energias, coisa nem sempre fácil de achar naquele trecho.

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a volta foi relativamente mais fácil que a ida – ah, como é bonito quando se vê rio pardo no horizonte, e percebe que faltam apenas 30 ou 40 km para chegar…. cheguei em casa por volta das 21 horas, comi alguma coisa e literalmente capotei.

coisas legais que percebi dessa vez:

+ o carregador de celular que levei, mesmo categoria “brinde da firma”, funcionou muito bem. então este problema – falta de carga no celular – está resolvido.

+ o farol e as sinaleiras da bike funcionam muito bem à noite. itens indispensáveis, portanto.

+ camisão UV e bronzeador são itens que não dá mais pra esquecer.

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o que que precisa ser trabalhado, ainda:

+ mais água. esta semana passo no faccin bicicletas, que apoia a operação banda oriental, e compro uma mochila-reservatório.

+ a qualidade do alimento de apoio. para longas distâncias, levar alguma coisa salgada, também.

+ o pezinho da bike: como la negra 2 é uma mtb xl, e em trechos como eu fiz ontem nem sempre tem um posto, ou uma árvore disponível, é item mais que necessário, em especial quando eu viajar com os alforges.

detalhes ruins da estrada:

+ vi tatus, graxains, gambás e pássaros os mais diversos atropelados.

+ só há uma área de descanso entre pantano e encruzilhada do sul, ainda assim sem estrutura alguma

+ a pior espécie de motorista de caminhão é aquele que buzina forte no momento em que está passando por você. falta adjetivos para qualificá-los. os demais são legais.

bora pedalar, então?

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os pedais e os livros

abaixo, coluna publicada no riovale jornal, aqui de santa cruz do sul, apoiador da operação banda oriental.

sobre o “limbo existencial” que estou vivendo neste momento de meu treinamento.

entre por aqui, ou diretamente na imagem.

abaixo dela, texto completo.

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Pedalando livros

Demétrio de Azeredo Soster
Professor universitário, jornalista, cicloturista

deazeredososter@gmail.com

Outro dia, em uma pedalada rápida até Sinimbu – aqui do lado; ou seja, pouco mais de 50 km ida e frida – dei-me conta que estou em uma espécie de “limbo” existencial quando o assunto é a “Operação Banda Oriental”.

Ou seja, daqui até o dia da partida (que, por sinal, ainda precisa ser definido), tudo o que tenho de fazer é pedalar, se possível por distâncias ainda não percorridas, e, com isso, manter-me em forma.

Claro que, como contei na última coluna, ainda falta alguma coisa a ser comprada – a GoPro, para as filmagens (a ideia é um documentário ao final da viagem); uma barraca, um telefone mais decente que o atual, alguma roupa; enfim, pouca coisa.

Por que limbo?

Porque daqui até dezembro, quando devo pegar a estrada, temos, ainda, pouco mais de dois meses, o que, por si só, não é muito, mas se torna bastante se considerarmos que, a julgar pela minha vontade, poderia partir hoje, sem problemas.

Angústias à parte, estou aproveitando para me informar mais, para aprender melhor.

E conhecimento, para mim, tem tudo a ver com livro.

Como já li mais de dez deles até o momento, divido com vocês uma espécie de categorização das obras que estou elaborando – coisa de professor; não liga –, que se dividem, grosso modo, em: relatos de viagem; relatos/reflexões pessoais, com uma leve queda para a auto ajuda; relatos de viagem misturadas com reflexões pessoais; e, finalmente, literatura instrumentalizante.

O primeiro grupo – relatos de viagem – é o que mais se encontra. Ou seja, gente de diz, linha após linha, o que fez e o que deixou de fazer. Observem que eu usei o verbo “dizer”, que é bem diferente de “narrar”: narrar tem a ver com estruturas a frase, provocar sensações a partir do vivido, ampliar horizontes. Coisas assim.

Insiro neste grupo “Trilhando sonhos: 365 dias de bicicleta pela América do Sul”, (Editora Extremos, 2014), de Thiago Fantinatti, e “Estrada da morte & caminhos da fé” (99 e-books, 2015), de José Vanderlei Dissenha.

O segundo item – reflexões pessoais, com uma leve queda para a auto ajuda – também se destaca.  Não é tão frequente quanto o primeiro item, mas dá pra dizer que é bem fácil encontrar um livro sobre cicloturismo que fale, sobretudo, do que se aprende com a prática.

É o caso de “O mundo sem anéis: cem dias de bicicleta” (Editora Longe, 2013) de Mariana Carpanezzi, e “Quatro países: europa de bicicleta” (Edição do autor, 2015), de Paulo Mendes.

O terceiro item diz respeito mais aos livros de longas pedaladas, caso do Transpatagônia (Kalapalo, 2015), de Guilherme Cavallari, ou, ainda, “O ciclista mascarado: uma aventura de bicicleta na África ocidental” (Belas Letras, 2016), de Neil Peart, baterista do Rush. Nestes, encontramos, à farta, narrativas e reflexões.

O quarto e último grupo, na minha classificação, é o que chamo de literatura instrumentalizante, ou seja, livros caráter “manual”, que visam, principalmente, ajudar os ciclistas a dar conta de suas viagens do ponto de vista prático.

Tipo trocar um pneu, consertar uma corrente, essas coisas. Neste grupo se encaixam “Manual de mountain bike e cicloturismo” (Kapalalo, 2012),  de Guilherme Cavallari, e “Guia essencial de ciclismo (On line editora, 2015).

Prefiro o terceiro grupo, ou seja, relatos de viagem misturadas com reflexões pessoais. Tem a ver com o que, de certa forma, estamos fazendo aqui, neste espaço: aprendendo e refletindo sobre o que se aprende..

Quer saber mais sobre minhas leituras? Visita meu site: https://operegrinosite.wordpress.com/leituras-de-viagem/

Bora pedalar, então!

 

 

 

“E se alguma coisa acontecer na estrada?”

por aqui, e clicando diretamente na imagem, você acessa a coluna veiculada sábado 1º de outubro, no riovale jornal, apoiador da operação banda oriental.

logo abaixo, o texto na íntegra.

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“E se alguma coisa acontecer na estrada?”

Os preparativos à Operação Banda Oriental estão entrando em um momento particularmente curioso, basicamente porque resta muito pouco a ser feito que não comprar mais algum equipamento, cuidar do peso e seguir pedalando.

Refiro-me, no que toca ao equipamento, à câmara GoPro, pensando no documentário que quero fazer depois da viagem; um telefone mais decente que meu iPhone 4s atual; barraca e alguma roupa de verão, pois a que tenho é basicamente de inverno.

Quanto ao peso, é me manter na casa dos 90 kg, onde estou neste momento, o que não é tarefa difícil, especialmente nestes dias quentes de verão que se aproximam.

De resto, está tudo pronto.

Especificamente sobre meu desempenho sobre as duas rodas de La negra 2, minha bike, a julgar pelo que tenho pedalado, em torno de 100, 120 km por final de semana, penso que está chegando a hora de partir.

Claro que tenho de pedalar um pouco mais no calor, pra me adaptar mais ao novo clima, já que meu treinamento foi feito todo no inverno, mas isso é coisa que se resolve com mais três ou quatro saídas e algum protetor solar, coisa que já comprei, inclusive.

O que está difícil de segurar é a ansiedade dos amigos e parentes para com a data da partida, mas, também, o espanto deles por saber que eu vou sozinho.

Semana passada, por exemplo, em plena Japaratinga, litoral norte de Alagoas, onde estive por uma semana em um congresso, à beira mar, correndo sempre que possível, mas sem pedalar, todas as pessoas que ficavam sabendo da Operação Banda Oriental se espantavam a) ao saber que eu pedalaria 2 mil km e, ato contínuo, b) que o faria sozinho.

E aí, dê-lhe explicar…

Se fosse só os conhecidos, tudo certo; afinal, as pessoas são curiosas mesmo e não é todo o dia que aparece um maluco defendendo as virtudes do cicloturismo de longa distância, mas com os amigos e parentes a coisa é bem mais séria.

Tipo:

“Tá, mas você não vai sozinho, vai?” (Sim, sim; eu vou sozinho.)

“Mas a Fabi vai atrás de carro, não vai?” (Não, a Fabi não vai atrás, de carro…)

“E se alguma coisa acontecer na estrada?” (Eu ser atacado por um tatu, por exemplo?)

“Barraca? Pra quê barraca?” (Pra equilibrar o peso da bike, sabe; dizem que funciona muito bem como contrapeso…)

Claro que tudo isso também significa que o pessoal não apenas gosta de mim como se preocupa com meu bem-estar, mas que é divertido, não tem como negar.

O fato é que o dia de partir está chegando – falta em torno de quatro meses, ainda – e, mesmo que a dia exato da saída, e o roteiro (já explico), estejam em aberto, sinto-me muito bem e pronto para pegar a estrada.

O certo é que o farei entre dezembro e janeiro, talvez fevereiro; tudo depende de alguns compromissos que apareceram por estes dias e que estão me fazendo rever o calendário.

E ainda tenho de decidir se entro no Uruguai por Santana do Livramento ou pela Chuí, ainda que esta escolha não interfira significamente em nada, ainda que ela, a escolha, seja tomada porque talvez passemos o ano-novo juntos – a família e eu – em algum lugar da Banda Oriental.

Quando eu decidir, conto a vocês.

Bora pedalar, então?